Fim de um capítulo

(Capítulo anterior)

– Sim, apesar de estar livre de qualquer compromisso, devo continuar com minha viagem, encontrar o que venho procurando, ainda que não saiba o que de fato é.

– Entendo, não deve ser tão instigante ficar na presença de um velho que só tem perguntas a fazer, e sem nada de muito interessante a contar – dessa vez, olhando em meus olhos, mostra toda sua vulnerabilidade – Mas como disse noite passada, não há ninguém que possa me fazer companhia, e não exagerei quanto a estar usando o tempo que me resta, sendo esse muito pouco, como sinto. Apenas gostaria de não passar esses últimos momentos sozinho, como fiz boa parte da minha vida, queria ter alguém ao meu lado somente dessa vez, sei que parece pedir muito, mas não me resta nenhuma alternativa a não ser tentar.

Fico sem saber o que dizer, não me sinto tão confortável com essa situação, nunca planejei ser a última companhia de alguém que diz estar esperando a morte. Todavia, minha realidade não tão distante da sua, sendo filho único de pais já falecidos e sem nenhuma outra família ou amor, sinto certa empatia, uma dor de lhe causar uma última decepção.

– Minha companhia faria muita diferença ao senhor? – as palavras simplesmente saem da minha boca, antes mesmo de analisar com mais afinco a situação – Se de fato for o que deseja, creio que alguns dias a mais por aqui não afetarão minha vida.

Com um sorriso sem tristeza, talvez o primeiro que o vejo dar, acena com a cabeça, respondendo minha pergunta. E assim, acabo de constatar que terei que passar mais alguns dias por aqui.

Surpreendentemente, ao longo dos dias, Gabriel diferente do que havia dito, tem muito que contar, e mais ainda para ensinar, como se suas decepções houvessem somado uma sabedoria e bons conselhos. Aos poucos, me parece que ele está oferecendo mais a mim do que eu a ele. Até que algumas semanas depois, não sei dizer quantas, já que perdi um pouco a noção dos dias e já não carregava meu celular a algum tempo, Gabriel demora para a acordar, e preocupado, vou até seu quarto, ver como se sente, porém ele já não sente nada, apenas descansa. Como havia falado, seu tempo restante era pouco, não sei como tinha conhecimento disso. Sem saber ao certo o que fazer, concluo que o mais digno seria enterrá-lo eu mesmo, já que não sei qual a distância daqui até a cidade mais próxima. Decido enterrá-lo próximo ao altar que visitava todas as manhãs e noites, quem sabe lhe de mais paz estar próximo a um lugar que lhe parecia ser tão importante. Por alguma razão que desconheço, acabo enterrando com ele a foto da jovem, sinto que também lhe agradaria. Enfim pego minhas coisas e me preparo para deixar a casa, trancando a porta de entrada. Por alguns instantes fico sem saber o que fazer com a chave, até que um papel cai de minha mochila, não sei como não o havia notado antes. É um bilhete, deixado por Gabriel, apenas dizendo:

“Para aquele que apesar da própria dor, é capaz de cuidar do próximo. Guarde consigo essa chave, como forma de sempre se lembrar do que tentei lhe ensinar, e quando encontrar tudo o que te faça feliz, apenas passe para alguém que esteja precisando “dela” mais do que você.”.

Sinto um aperto, uma saudade de alguém que alguns dias atrás, era apenas um desconhecido. Mas também fico feliz em saber que fiz a escolha certa. Olhando para todo o espaço a minha volta, tento me localizar, sem saber exatamente qual direção seguir; até que ouço um relincho, e vejo o cavalo de Gabriel, o qual não via há dias, tendo até me esquecido do mesmo. Ele anda em minha direção e parando logo a minha frente, inclina a cabeça, como que dizendo para confiar nele e subir. Sem saber o porquê, monto-o, afinal de contas, sem Gabriel aqui, não haverá ninguém para cuidar dele. Apesar de preocupado por não saber exatamente o que fazer, o cavalo simplesmente começa a andar, como se soubesse exatamente por onde ir, para onde me levar. Após dois dias de caminhada, enfim chegamos ao que me parece ser um vilarejo. Desço de Apollo, acabei chamando-o assim, para poder observar melhor o vilarejo. Algumas poucas pessoas circulam por ali, provavelmente moradores locais realizando seus afazeres rotineiros. Imagino que o mais sensato a se fazer seja procurar alguma pousada, estalajadeiro ou o que quer que seja, mas algum lugar que saibam dar informações para turistas. Porém, ao passar em frente uma igreja, um panfleto grudado na parede chama minha atenção, e quando paro para ler, vejo uma foto de Gabriel, alguns anos mais jovem, seguida da frase “Missa de Aniversário de 30 anos da morte de Gabriel Soarez, antigo residente e importante morador da cidade. Descanse em paz”. Sem saber o que pensar, apenas sigo meu caminho, apertando a chave em minha mão, prometendo a mim mesmo encerrar esse capítulo da minha vida e começar um novo.

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” […] ao passar em frente uma igreja, um panfleto grudado na parede chama minha atenção […]”
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