Convite

(Capítulo anterior)

Surpreendentemente, o interior consegue contrastar imponência com uma sensação aconchegante, misturando traços antigos e rústicos na mobília, além da luminosidade ser boa e clara, diferentemente do aspecto sombrio do exterior. Assim como a mudança de astral no ambiente, o mesmo parece ocorrer na personalidade de Gabriel, que agora se apresenta mais simpático do que antes. Ele sorri e acena com a cabeça, pedindo que o siga até o cômodo ao lado, no caso, a sala. Ao chegarmos, Gabriel primeiramente acende a lareira, pega uma bandeja posta em uma mesa no canto esquerdo e a coloca sobre a mesa de centro, e então se acomoda em uma poltrona. Como bom convidado, me sento no sofá mais próximo e me sirvo de um pouco do conteúdo do bule, o que descubro ser chá e que está estranhamente quente, já que acabamos de chegar e a bandeja se encontrava aqui desde o início, fico me questionando se há mais alguém presente na casa, porém me abstenho de fazer mais perguntas, apenas esperando que Gabriel retome nossa conversa, o que não demora a acontecer.

– Então – Fala sorrindo, como se já soubesse a resposta daquilo que iria perguntar, se divertindo com as expressões feitas por seu convidado – Surpreso com minha casa?

– Bem, devo admitir que sim, esperava algo menor, por assim dizer.

– Imaginei, afinal de contas não é de se esperar que um homem como eu vivesse em um lugar assim.  Mas falando em viver, me conte mais a seu respeito meu jovem.

– Não sei o que há para se contar de interessante a meu respeito, senhor. Apenas decidi passar um tempo comigo mesmo depois de uma conturbada relação e má escolha de faculdade, nada de extraordinário. E quanto a você?

– Hum, entendo. Creio que nossas histórias possuem algumas semelhanças. Nunca consegui ser feliz no amor, decepção seguida por decepção, até desistir de tentar, então já que não pude encontrar quem quisesse minha presença, decidir por viver isolado de todos. A vida aqui é tranquila, mas me arrependo de não ter tentado ao menos mais uma vez. Agora cá estou eu, sozinho, apenas usando o tempo que me resta.

Sua face torna-se sombria, não de um modo amedrontador, mas sim com dor, uma dor gerada pela solidão, por nunca ter tido alguém com quem compartilhar seus momentos. Um silencia paira no ambiente, até que ele se levanta e apenas diz sem me olhar nos olhos.

– Está tarde, deveríamos dormir. Aproveite para descansar em uma cama de verdade, jovem. Há muitos quartos aqui, não irá atrapalhar você ocupar um deles. Sinta-se a vontade. Amanhã conversamos.

Ele simplesmente some em meio aos corredores, me deixando sozinho e perdido em sua casa. Se ainda houvesse sol, talvez eu optasse por continuar minha trilha, mas em meio a noite e lugar desconhecido, acho melhor seguir seu conselho e dormir aqui essa noite, claro, assim que encontrar um dos quartos. Andando pelos corredores, percebo uma grande quantidade de porta-retratos vazios espalhados, tendo apenas um de fato com uma foto, uma jovem de pele clara e cabelos negros aparece com um meio sorriso, como que envergonhada, em um vasto campo não muito diferente desses pelos quais passei hoje. Tal foto no meio de tantos quadros vazios da a impressão de que a intenção é que cada um deles fosse preenchido com alguma outra foto dela, de momentos com ela, momentos esses que pelo visto, nunca chegaram a acontecer. Enfim encontro o quarto, simples, arejado, e de algum modo, com tudo preparado para receber um hóspede. Pergunto-me se todos ficam assim ou se de algum modo, Gabriel sabia em qual eu iria me instalar. Antes de me deitar, dirijo-me ao banheiro e fico alguns instantes encarando meu reflexo no espelho, refletindo sobre a pouca diferença que separa a vida de Gabriel da minha. Talvez apenas a idade seja essa diferença, e caso nada aconteça, quem sabe não acabe da mesma forma. Deito com esse pensamento na cabeça me tirando um pouco do sono. Apesar de saber lidar com minha solidão, não desejo que ela permaneça por uma vida, encarava-a apenas como algo momentâneo, um período de reflexão e evolução pessoal. Com esse pensamento, caio em sono, o qual parece durar apenas alguns segundos, apesar de já estar claro ao acordar. As janelas estão abertas, apesar de estarem fechadas quando me deitei, pelo menos era essa a lembrança que eu tinha. Saio do quarto e sou guiado até a cozinha pelo cheiro de café, e encontro Gabriel sentado à mesa, com aparentemente toda a comida que tinha nos armários exposta na mesa. Enquanto jejuamos, Gabriel pergunta se tive uma boa noite de sono, e emenda um assunto atrás do outro, parecendo ainda mais interessado em minha vida do que na noite anterior. Acho engraçada sua curiosidade, imaginando se faz muito tempo desde que conversou pela última vez com alguém, com algum “amigo”. Ao terminar o café, me levanto, agradecendo sua hospitalidade e atenção, mas dizendo que enfim preciso continuar meu caminho. Então eis que a face de Gabriel retoma o um ar sombrio, dessa vez como uma criança melancólica, que não quer perder seu novo brinquedo.

– Realmente precisa partir agora? – me pergunta olhando para o lado – Pode continuar e descansar mais um pouco. Pelo que me disse, não tem nada de importante agendado.

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