Diálogo improvável

(Capítulo anterior)

Parado em minha frente se encontra um senhor, apesar da idade avançada, ainda se mostra forte e imponente. Ele permanece parado, como se  a aguardar alguma ação minha. Então, vendo que não há nenhuma outra opção disponível, saio da barraca e me levanto lentamente, afim de não parecer nada agressivo, e enfim me manifesto com uma simples saudação:

– Olá – digo de modo calmo, porém apreensivo – Tudo bem com o senhor?

– Sim, e quanto a você jovem? Dormiu bem? Fiquei por aqui durante a noite.

Ele diz naturalmente, como se vigiar um desconhecido por uma noite inteira fosse algo comum e sensato.

– Na medida do possível – respondo tentando parecer despreocupado e quem sabe, amigável – Mas se me permite a pergunta, por que passou a noite aqui?

– Estava esperando você acordar. Avistei você assim que chegou aqui, e te observei enquanto se preparava para dormir, pois achei melhor termos essa conversa à luz do sol, para que não lhe parecesse tão digamos, ameaçador, como imagino que deve ter pensado.

Ao que parece, tal senhor gosta de ser objetivo, poupando palavras desnecessárias, cause boa impressão ou não.

– Hum…agradeço a preocupação, mas qual seria o assunto tão importante?

Ele maneia a cabeça, talvez avaliando bem as escolhas de suas palavras.

– Talvez não seja um assunto específico que tenhamos para discutir, pode-se dizer que esta mais para uma questão de curiosidade. Sabe, faz alguns anos que vivo por aqui e encontrar turistas andando pelos arredores não é algo muito comum. Geralmente há apenas eu vagando em meio às árvores e animais, alguns amigáveis, outros nem tanto. Então quando avistei você, fui tomado por certa curiosidade, mas provavelmente o meu tempo de isolamento tenha afetado meu senso de como se aproximar de alguém, então desculpa caso tenha te assustado.

A cada gesto e fala, o homem misterioso me surpreende, antes por sua sinceridade, agora por seu pedido de desculpas, imaginando e com razão que o seu modo de contatar alguém não seja tão sútil. Meu receio quanto a sua presença acabou por se dissipar com essa recente declaração, restando-me apenas a curiosidade sobre ele.

– Entendo, admito ter ficado um pouco apreensivo quando te vi, mas tudo bem agora. Aliás, se importaria em me dizer seu nome? – Percebo um leve choque em sua face, possivelmente pelo meu súbito interesse em sua pessoa – Me chamo Leon.

– Prazer, me chamo Gabriel.

– Prazer… E faz quanto tempo que vive aqui? Desculpa se eu estiver sendo muito inquisitivo, caso estiver incomodado, não precisa responder.

– De modo algum, sinta-se livre para questionar, claro, desde que me conceda a mesma liberdade. Mas antes de começarmos esse diálogo, poderíamos ir para minha casa, ao invés de passar o dia todo em pé no meio do mato.

Gabriel retoma seu ar imperativo, falando mais como um comando do que uma simples sugestão, ao passo que enquanto está terminando de falar, começa a andar em direção a um cavalo, que presumo ser seu, amarrado um pouco atrás da barraca, o que me deixa sem saber como não percebi sua presença antes. Mas ao invés de montar no mesmo, ele apenas desamarra o nó que o prendia, e toma a rédea, a fim de andar ao lado do cavalo, e não montado, diria que por empatia, uma vez que estou a pé. Por alguns instantes fico sem reação, me perguntando se devo segui-lo ou por precaução, tomar o meu próprio rumo. Sem hesitar, Gabriel continua andando sem olhar para trás ou me chamar, como se ele já soubesse qual seria minha decisão antes mesmo de mim.

 

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